Será que Jerry Krause é mesmo o vilão que ‘The Last Dance’ faz transparecer?

O herói do documentário ‘The Last Dance‘ é óbvio: Michael Jordan, o melhor basquetebolista de todos os tempos. Mas o documentário de dez episódios também tem um óbvio vilão, e não é nenhuma das equipas contra quem Jordan jogou. É Jerry Krause, o Director Geral que desmantelou intencionalmente a dinastia numa tentativa de provar o seu próprio valor.

Em ‘The Last Dance’, Krause é retratado como fútil, invejoso e teimoso – e em cima disso é chamado de gordo e feio. De facto, o documentário implica que Krause era fútil e invejoso muito por causa da sua aparência. “O Jerry tinha o complexo do homem pequeno. Cresceu como um miúdo pequeno e gordo,” diz o escritor Mark Vancil na sua primeira aparição no documentário. “Foi sempre o oprimido, e não conseguia controlar esse lado nele que precisava que lhe dessem o mérito.

Durante os episódios, Jordan, Phil Jackson e Scottie Pippen, todos eles, criticam Krause, com várias cenas que mostram Jordan a humilhar o executivo acerca da sua altura e peso.

O documentário explica que Krause, um olheiro de basebol, veio para os Bulls em 1985 – um ano depois de Jordan ser escolhido no draft – e passou os próximos 15 anos a alimentar uma fúria por causa de todo o mérito que Jordan recebia pelos campeonatos ganhos pelos Bulls. Portanto Krause decidiu construir uma nova dinastia. Disse a Phil Jackson que 1997/98 seria a sua última temporada como treinador dos Bulls, enquanto cortejava um treinador com relativo sucesso da Universidade de Iowa State, Tim Floyd, para ser o sucessor. Jordan declarou que não jogava com outro treinador que não fosse Jackson. Entretanto, Krause recusava negociar um contrato justo para Pippen, o brilhante número dois de Jordan.

Virtualmente todas as figuras-chave da equipa que venceu o último tricampeonato deixaram os Bulls em 1998, e a equipa venceu 66 jogos no combinado das quatro temporadas seguintes. Chicago construiu as suas esperanças à volta de duas escolhas altas no draft, Marcus Fizer e Eddy Curry, e nunca mais voltou aos playoffs até Krause deixar a organização em 2003. Krause tinha os ases na mão e ficou chateado porque disseram que quem baralhou é que era o responsável por esses ases, e decidiu que conseguia fazer melhor escolhendo ele as cartas. Por esta via, as suas acções são indefensáveis: os Bulls de Jordan eram um um bonito e insubstituível cristal, e Krause destruiu-o só por causa do seu ego. Não temos a certeza se Jordan e Pippen continuariam a vencer títulos depois de 1998, mas Krause negou ao mundo esse conhecimento. A sua estupidez sozinha é de tirar o fôlego; que tenha crescido pro causa da sua insegurança faz disso imperdoável.

Mas Krause não foi apenas responsável por mandar fora uma mão cheia de ases. Enquanto tem de ser culpado pela desnecessária destruição dos Bulls, também foi instrumental na criação da dinastia. Krause – que foi duas vezes o executivo do ano da NBA e empossado no Hall of Fame em 2017 – rodeou Jordan com as peças complementares que precisava para vencer três títulos seguidos entre 1991 e 1993. Livrou-se de muitas dessas peças e rodeou Jordan de um conjunto diferente de peças para outro tricampeonato. Enquanto ‘The Last Dance’ mostra os Bulls que escolheram Jordan no draft em 1984 como um “circo de cocaína” e como os companheiros eram apanhados em situações menos boas, nunca explica como Krause foi a pessoa que construiu os alicerces para tornar esse circo numa equipa campeã.

O documentário faz questão de mostrar a história de como Pippen veio do anonimato para se tornar um dos melhores de todos os tempos e parte integral na dinastia dos Bulls, mas não dá a Krause o mérito de encontrar Pippen. Nem aborda o histórico de Krause em descobrir estrelas em universidades pequenas. Durante o seu tempo nos Washington Bullets, Krause encontrou Earl Monroe e Jerry Sloan na Divisão II da NCAA. A descoberta de Monroe é considerada a história da sua origem, mas Jordan nunca acreditou – os Bullets escolheram Monroe na 2ª posição do draft em 1967, e MJ sempre pensou que um jogador escolhido na segunda posição não podia ser um grande segredo. Se Krause não escolhesse Monroe, “alguém o teria escolhido em 3º ou 4º,” disse Jordan. A paixão de Krause por talentos de pequenas universidades foi evidente no seu primeiro ano como Director Geral dos Bulls, já que escolheu Charles Oakley da Virginia Union, da Divisão II da NCAA, no draft de 1985.

Não recebemos nenhuma desta informação do documentário, que faz parecer que Krause trabalhava apenas com basebol antes dos Bulls. E nenhuma das escolhas de Krause deu-lhe credibilidade perante Jordan, que via o seu interesse em talentos de escolas pequenas como uma fraqueza. “A minha definição completa de Krause é que ele favorece o oprimido,” disse Jordan em 1993. “Ele quer aquele diamante por lapidar. Penso que teve uma infância difícil, onde sempre implicavam com ele, e esta é a sua maneira de compensar.

Pippen foi a obra-prima de Krause. Um artigo da Sports Illustrated de 1987 contava como os Bulls eram uma das poucas equipas a enviar observadores para ver Pippen jogar pela Universidade Central Arkansas. Em 1993 Krause disse que “quase tive um orgasmo” a primeira vez que viu Pippen ao vivo. Krause ficou cabisbaixo quando Pippen impressionou nos treinos antes do draft, e os SuperSonics acabaram por escolher Pippen em 5º lugar – mas Krause trocou a sua oitava escolha (Olden Plunice) e futuras escolhas para assegurar Scottie. Fora a troca dos Lakers em 1996 que levou Kobe Bryant para Los Angeles, é provavelmente a melhor troca feita durante a noite do draft. O documentário mostra Krause ao lado de Pippen numa conferência de imprensa, mas também exalta o crescimento de Pippen do anonimato para o estrelato da NBA num arco que não reconhece o papel de Krause nessa história.

Durante a sua passagem pelos Bullets, Krause também se apaixonou por um power forward da Divisão II em North Dakota. Era Phil Jackson. Krause não conseguiu que os Bullets escolhessem Jackson – os Knicks escolheram-no na segunda ronda do draft de 1967 – mas manteve um relacionamento com ele, mesmo quando a carreira de treinador de Jackson foi para a obscuridão total. Jackson treinou na CBA os Albany Patroons e um par de equipas em Porto Rico, com as equipas da NBA a recusarem darem uma oportunidade ao hippie. Em 1985 Krause pediu a Jackson para escrever alguns relatórios sobre jogadores da CBA, e ficou impressionado com o trabalho de Jackson. Dois anos mais tarde, quando Jackson estava a considerar pedir o subsídio de desemprego ou voltar para o curso de direito, ele foi ter com Krause numa última tentativa de manter o seu sonho de ser treinador vivo – e Krause contratou-o como treinador adjunto. Nos Bulls, Jackson ganhou afinidade com outra das contratações de Krause (Tex Winter, um treinador com algum sucesso no basquete universitário e que inventou o triângulo ofensivo) e tornou-se num dos maiores treinadores de todos os tempos. O documentário não menciona o facto de Krause ter salvo a carreira de Jackson, focando-se em vez disso na dissolução desse relacionamento na entrada da temporada 1997/98.

Podemos continuar.

O documentário faz alarido sobre o interesse de Krause em Toni Kukoc e como isso irritou Jordan e Pippen antes dos jogos olímpicos de 1992, mas não gasta muito tempo a explicar como Krause encontrou Kukoc, assegurando uma peça essencial do segundo tricampeonato dos Bulls. Krause teve a sabedoria de seguir um grandalhão europeu com um bom lançamento de três pontos numa altura que nem europeus, nem grandalhões a lançar triplos, estavam em voga. O documentário nota como Dennis Rodman se tornou indesejado na NBA graças ao seu comportamento volátil, mas passa pelo facto de Krause ter assegurado um dos melhores ressaltadores da história da NBA com uma troca por Will Perdue. Steve Kerr estava praticamente esquecido quando se juntou aos Bulls em 1993, quando assinou pelo salário mínimo da liga, e tornou-se um dos mais eficientes lançadores da história da NBA. Krause fez vários movimentos que chatearam Jordan, como trocar o seu amigo Charles Oakley por Bill Cartwright em 1988. Até 1997, contudo, quase todas as sua escolhas melhoraram a equipa.

Percebe-se a razão do documentário não gastar muito tempo a celebrar os sucessos de Krause. É um documentário acerca do melhor jogador de todos os tempos e a sua personalidade maior que a vida que fazem dele um individuo singular. Não é sobre um engravatado que faz trocas e assina contratos de baixo valor. Nos últimos vinte anos a maneira como o universo desportivo olha para as pessoas que tomam decisões nos clubes tem mudado de maneira significativa. Há fãs que têm mais carinho pelos seus directores do que pelas estrelas da equipa, e por um lado até é bom que ‘The Last Dance’ coloque um travão nessa narrativa. Que Pippen, um dos melhores de todos os tempos, tenha assinado um contrato de 18$ milhões por sete anos pode ser hoje tratado como um golpe que permitiu à equipa estruturar melhor o seu tecto salarial. O documentário retrata correctamente o mísero salário de Pippen em comparação com as suas enormes contribuições em campo como uma tragédia desportiva.

Krause é arrasado no documentário por causa de uma citação em particular: “Jogadores e treinadores não ganham campeonatos; organizações ganham campeonatos.” (Krause afirmou mais tarde que foi mal citado e que o que disse foi que “jogadores e treinadores sozinhos não ganham campeonatos.“) Isto parece uma óbvia exaltação dos seus defeitos. Krause trabalhou para uma equipa com o melhor jogador de sempre, o melhor 2º jogador de sempre, e talvez o melhor treinador de sempre – e teve coragem de afirmar que eles não “venciam campeonatos” por causa da sua patológica necessidade de receber mérito. Claro que os jogadores e treinadores são os principais responsáveis pelas vitórias, não os directores.

Ainda assim, Krause encontrou os jogadores e os treinadores que venceram esses campeonatos. Ele tinha o raro dom para descobrir jogadores e treinadores em quem ninguém reparava, e usou esse dom para juntar uma combinação mágica de talento e personalidade que deu lugar aos lendários Bulls – a equipa que mudou o basquetebol para sempre e ainda nos fascina passados mais de 20 anos. O documentário apenas deixa esta parte do incrível legado dos Bulls de fora.

Krause não teve oportunidade de se defender no documentário, já que faleceu em 2017. (Na altura da sua morte, Jordan reconheceu que Krause teve um papel crucial na dinastia dos Bulls.) As poucas vezes onde se ouve Krause vem de imagens de arquivo. O documentário também falha nas críticas a um dos principais arquitectos da queda dos Bulls: Jerry Reinsdorf, cujo percurso tem sido marcado por altos lucros e baixos salários. Reinsdorf, que já disse publicamente que se importa mais com os White Sox do que com os Bulls, ficou feliz por evitar pagar a Jordan e a Pippen depois de irem embora. Krause deixou os Bulls em 2003, mas a equipa continuou a cair de maneiras que reflectem o seu dono.

Krause é um dos melhores Directores Gerais na história da NBA. Também fez um dos maiores erros de qualquer Director Geral da história da NBA, privando o mundo de ver até onde chegaria o mais icónico jogador e equipa de sempre. O documentário conta um lado da história, mas não o outro. É impressionante que quando Jordan fala do peso e da altura de Krause não pareça uma demonstração de crueldade de MJ – mais parece que é suposto rir do pequeno e gordo vilão que estragou tudo.

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