72-10

Phil Jackson disse uma vez que a sua equipa dos Lakers que tinha vencido um par de campeonatos com Shaquille O’Neal e Kobe Bryant, e que estava a caminho da sua terceira final consecutiva, falava sempre disso.

“As minhas equipas dos Lakers diziam sempre que queriam quebrar esse recorde,” relembra Jackson. “E eu dizia: Boa sorte.”

Porque a temporada de 1995/96 dos Bulls foi o arco-íris perfeito de uma temporada na NBA. Tantos fatores incríveis e incompreensíveis juntaram-se para formar um dos mais bonitos sinais do basquetebol, um reflexo do brilho de Michael Jordan, a refração com Dennis Rodman e a dispersão única e vários talentos dentro de um grupo comprometido de indivíduos que formaram este tremendo espectro de um feito brilhante para uma temporada especial e brilhante.

Foi a temporada dos 72-10 de 1995/96, um tempo memorável quando esses elementos incríveis juntaram-se e formaram um momento desportivo da mais perfeita das equipas de basquetebol.

Nessa temporada os Bulls definiram o recorde para mais vitórias na fase regular com 72 vitórias, a primeira equipa de sempre a ultrapassar a barreira das 70 vitórias (o recorde foi entretanto batido pelos Golden State Warriors em 2015/16), juntamente com 33 vitórias fora. A sua margem de vitória foi de 12.3 pontos por jogo, empatado com o recorde da liga. O seu recorde em casa de 39-2 foi o segundo melhor de sempre. Michael Jordan liderou a liga em pontuação e foi o MVP da temporada regular e das finais, além de ser eleito para a equipa ideal defensiva juntamente com Dennis Rodman e Scottie Pippen. Jordan e Pippen ainda foram eleitos para a equipa ideal da liga. Toni Kukoc foi o sexto homem do ano, Phil Jackson o treinador do ano e Jerry Krause o executivo do ano. Rodman liderou a liga em ressaltos e Steve Kerr foi o segundo em triplos. Nunca tinha havido uma equipa tão dominante como aquela de 1995/96 dos Bulls.

“Foi um daqueles anos onde tudo correu bem,” relembra Steve Kerr, agora treinador dos Golden State Warriors (e que ultrapassou o recorde de vitórias na temporada regular em 2015/16, mas perdeu as finais para os Cleveland Cavaliers por 4-3, depois de ter liderado a série por 3-1). “Havia uma motivação incrível, toda a gente estava na mesma direcção. Motivado como o Michael estava sempre, esse ano esta uns furos acima por causa do que tinha passado, a ausência do jogo, a derrota nos playoffs com os Magic no ano anterior. A motivação era simplesmente incrível. E foi assim durante a temporada inteira e foi por isso que tornou tudo tão notável. Tudo isso começou nos treinos de pré-temporada , o nível de competição nos treinos. Ele definiu o nível lá em cima e foi feroz. Tudo o que aconteceu foi o produto do nível que ele definiu logo desde o início.”

“Qualquer grande jogo que teve algo de especial arrancou o melhor de nós,” disse Kerr. “Lembro-me de um jogo em Houston em que eles tinham o Barkley, Hakeem e Drexler (e eram os campeões em título) e seriam o nosso equivalente na Conferência Oeste. Fomos a Houston e demos cabo deles. O jogo com os Lakers quando o Magic voltou a jogar e vencemos, os quatro jogos com os Magic (nos playoffs) onde os varremos. Esse era supostamente o encontro de titãs. Parecia que quanto maior fosse o desafio, melhor a equipa jogava.”

“Eu dizia às pessoas que esse recorde nunca seria batido,” diz Kerr. “Parecia impossível. Tudo tem de correr bem mesmo que não importe. O diferencial era o Michael. Já não existem jogadores como ele. Kobe estava próximo. O LeBron não é assim. É fenomenal, mas o Michael era tão único, tão dotado, tão motivado, tão talentoso que ele transcendia tudo e parecia que isso nunca mais aconteceria.”

Tudo começou em Maio de 1995 nos playoffs, onde os Bulls perderam com os Orlando Magic, tidos como a próxima grande dinastia da NBA, em seis jogos, tendo a derrota no jogo seis sido em casa. Horace Grant, que tinha estado no primeiro tricampeonato dos Bulls, tinha saído para os Magic e jogou muito bem nessa ronda dos playoffs. Nick Anderson tinha gozado com Jordan depois de ter roubado uma bola a Jordan no primeiro jogo em Orlando quando Jordan usava a camisola 45 – “O número 45 não explode como o 23 costumava fazer. O número 45 não é o número 23. Eu nunca conseguiria fazer aquilo com o número 23.”

Jordan mudou de volta para a camisola 23. A NBA multou Jordan pela mudança. Mas a falta de um power forward que substituísse Horace Grant combinada com a força e profundidade da jovem equipa dos Magic provou ser demais para Jordan e os Bulls. Os Magic chegaram às finais, onde perderam com os Houston Rockets de Hakeem Olajuwon.

“Depois desse último jogo contra os Magic, o sentimento era frustrante, porque achávamos que tínhamos uma equipa melhor, só não estávamos preparados,” disse Toni Kukoc. “O Michael admitiu que não estava preparado para o basquetebol e que ia tirar um tempo para se preparar para a nova temporada. E todos assumimos que se ele ia fazer isso, todos tínhamos de fazer o mesmo. Todos fomos para a pré-temporada em muito boa forma. O Ron Harper estava muito bem e ganhou o lugar de point guard. a atmosfera era que nós éramos uma equipa melhor que aquilo, estar fisicamente preparados e começar a jogar desde o começo e ver o que acontece.”

Apesar disso Jackson admite que inicialmente estava preocupado com a preparação de Jordan.

Esteve quase dois anos afastado do jogo quando se retirou depois do campeonato de 1992/93 e tinha embarcado numa aventura exótica no basebol depois do assassinato do seu pai. Jordan voltou aos Bulls em Março de 1995, e agora estava em Hollywood.

Estava a filmar o clássico “Space Jam”. E Jackson ficou preocupado como seria isso apropriado para um jogador que tinha regressado abaixo do que era e com mínimos de carreira nos lançamentos e pontos, excetuando a temporada de 1985/86 onde se lesionou e voltou com limitações de tempo de jogo.

“Estava preocupado por o Michael estar em Hollywood,” admite Jackson. “Toda a gente me dizia que ele estava focado no basquetebol apesar de estar a filmar o Space Jam. Toda a gente estava em Los Angeles e era o sítio que todos queriam estar, nos jogos do Michael, se fosses convidado.”

Mas havia outro problema.

Com a saída de Horace Grant, os Bulls estavam com dificuldades na posição de power forward. Jerry Reinsdof disse que se lembra de Jackson lhe dizer frequentemente, “Precisamos de alguém que agarre a bola.”

Jackson fez uma lista com os cinco melhores power forwards que poderiam estar disponíveis com uma troca ou sem contrato. Jogadores como Derrick Coleman e Jayson Williams. Houve complicações, mas o diretor geral adjunto, Jim Stack, tentou “vender” Dennis Rodman. O errático provocador dos “Bad Boys” de Detroit estava agora em San Antonio e desaparecia nos playoffs com o seu bizarro comportamento. Nos círculos da NBA dizia-se que era demasiado tóxico. Mas com apenas um ano restante no seu contrato, o diretor geral dos Bulls, Jerry Krause, foi persuadido por Stack a dar uma oportunidade.

“Será que a equipa aceitaria este tipo?” diz Jackson. “Eu encontrei-me com ele um dia antes da pré-temporada começar. Depois falei com a equipa. Falei sobre a contratação do Dennis. Vocês vão ter que ser tolerantes, não vai ser uma situação invejosa. Tentei sempre fazer as regras funcionar com todos, mas ele é uma pessoa que não vai lançar durante uma hora e meia porque ele não lança. Ele anda de bicicleta e está pronto. Disse-lhe que o ia multar por cada atraso para os jogos. Não começou bem. Eu entrei, ele não se levantou ou apertou a mão. E depois disse: ‘Eu mereço mais dinheiro, sou um jogador melhor, não estou a receber o que mereço.’ E eu digo-lhe que se ele jogar, isto é acerca de uma recompensa coletiva, não é acerca de potencial. Esta equipa paga sobre a produtividade. Seria compensado pelo que iria fazer. Ele encontrou-se comigo na manhã seguinte no centro de treino e entrou pelo edifício. Lá em cima ele ficou muito interessado nos meus artefactos dos índios americanos que eu tinha na minha sala. Parecia que tínhamos uma ligação por causa disso.”

Era mais do que um power forward, apesar disso. Os Bulls tinham entrado num declínio subtil no ano do terceiro título e prosperaram apenas pela determinação de Jordan, escapando por pouco nas finais da conferência contra os Knicks. Os Bulls tiveram uma temporada mágica em 1993/94 sem Jordan, mas uma falta controversa assinalada nas meias finais da conferência contra os Knicks deixou os Bulls de fora das finais da NBA.

Mas os Bulls estavam convencidos de que Jordan não voltaria ao basquetebol. Scottie Pippen, que tinha guiado a equipa de forma impressionante nessa temporada naquela que foi, provavelmente, a melhor temporada da sua carreira, também estava convencido de que Jordan não voltaria. Ele atormentou Jackson e a administração pedindo ajuda na forma de um shooting guard, o melhor jogador livre disponível e seu amigo próximo, Ron Harper. Harper era um atleta transcendente vindo da Universidade de Miami, e uma das razões pelas quais os Cleveland Cavaliers do final dos anos 1980 ficavam melhor classificados do que os Bulls. Harper não era tão bom quanto Jordan, mas Harper era tão atlético que Jordan não conseguia dominar a sua posição como fez contra tantas outras equipas. Mas Harper foi negociado com os Clippers e rompeu o ligamento cruzado anterior em Janeiro de 1990. Harper voltou a ser o pontuador, mas não o atleta que era. Ainda assim, ele teve uma média de cerca de 20 pontos por jogo. Mas Harper não conseguiu ajustar-se ao ataque e na sua primeira temporada com os Bulls regrediu mais do que qualquer jogador da NBA, com média de 6.9 ​​pontos e jogando atrás de Pete Myers, apesar de receber um dos contratos mais ricos da história do equipa.

“O Jerry Reinsdorf sempre disse que no basquetebol os jogadores mantêm as suas médias de ano para ano, mas no basebol não podes depender de um jogador,” disse Jackson. “Mas o Harper regrediu. Eu vi o que podíamos ser depois da série com os Magic. Também tínhamos um base grande na altura, as rotações eram importantes. Eles tinham bases altos, o Hardaway e o Anderson. e ainda tinham o Brian Shaw. Precisávamos de bases grandes, por isso permitimos que o BJ Armstrong ficasse exposto (no draf de expansão). Perguntei ao Michael se podia jogar a point guard. Só mais tarde nesse ano é que percebemos que qualquer um deles, Pippen, Harper ou Michael, podiam defender um base e conseguíamos ser efetivos. O Michael foi o que mais problemas teve em jogar no meio, já que se sentia mais confortável a jogar nas alas.”

Portanto, as peças para uma equipa estavam no lugar. Havia Rodman para os ressaltos, Harper para ajudar a defender. E haviam os jogadores que apareceram depois da primeira reforma de Jordan em 1993, desapontados e sob cerco apertado. Tinham visto os Bulls como um lugar para colecionar títulos. Agora estavam sob os holofotes. Mas aprenderam.

“Todos maturaram do ponto de vista do basquetebol e perceberam o jogo, perceberam o que era preciso fazer,” disse Kukoc. “Os jogadores novos estavam a ir para o seu terceiro ano, o Steve (Kerr) e o Bill (Wennington) e eu e o Luc (Longley) e os outros. Acho que conseguimos meter o triângulo ofensivo a funcionar, perceber como funciona e, obviamente, quando tens tipos como o Michael, Scottie, Dennis, Harper, tu sentes-te muito bem também no plano defensivo.”

Os elementos estavam a juntar-se para completar uma grande equipa no papel. Mas há aquela qualidade indefinível que tão poucos podem trazer, a natureza implacável. Claro, Jordan sempre foi muito competitivo. Mas isso era algo que eles nunca tinham visto antes.

“Percebemos desde o começo que o Michael estava chateado por ter perdido nos playoffs do ano anterior,” diz Wennington. “Acho que foi na primeira semana que estava a falar com o Steve Kerr e ele me diz que o Michael estava a jogar com uma motivação extra.”

“Olhámos um para o outro e disse que podia ser um ano muito interessante. Não sabíamos como seria interessante,” lembra Wennington. “Mas percebias de caras que ia ser um ano diferente.”

Tão diferente que ninguém podia imaginar, apesar de não ser completamente claro no começo da temporada.

Sim, os Bulls venceram os seus primeiros cinco jogo, mas foram contra equipas fracas. O primeiro teste da temporada regular veio ao sexto jogo em Orlando, contra os campeões da conferência este: Magic! Com Shaq e Hardaway a fazerem dupla, o último marcou 36 pontos e liderou os Magic à vitória.

Os Bulls voltaram a casa e o mundo da NBA ficou a pensar se aquele não era agora o mundo de Hardaway. Air Jordan seria agora uma coisa do passado. Havia uma nova estrela. Jordan, previsivelmente, estava determinado. E um padrão iria desenvolver-se.

“Lembro-me de termos perdido com os Magic no começo,” diz Kerr. “Depois disso conseguimos uma sequência de 10 vitórias seguidas.”

Na verdade foram cinco seguidas, uma derrota e depois 13 seguidas.

“Depois do primeiro mês de temporada percebemos o quão bons éramos,” disse Kerr. “Era um choque quando perdíamos. E depois de forma automática, quando perdíamos, entrávamos no jogo seguinte com uma fúria que vinha do Michael. Ele não queria perder nunca. Perder um jogo iria desencadear uma sequência de vitórias e queríamos seguir a partir daí.”

Os Bulls fizeram uma viajem pela Conferência Oeste, vencendo cinco de seis jogos, perdendo apenas em Seattle com os SuperSonics. Esse seria o outro grande candidato juntamente com os Magic. Foi uma viagem turbulenta quando os Bulls chegaram a Vancouver no final da viagem com 11-2. Jordan, num daqueles raros jogos em que não estava bem, estava de rastos. Os fracos, com 15 vitórias, Grizzlies estavam a liderar o jogo perto do final quando um base suplente chamado Darrick Martin, que tinha jogado em alguns jogos em Hollywood, passou por Jordan no banco dos Bulls e disse-lhe que ele sabia que iam ganhar. Sim, todos sabemos o que aconteceu a seguir.

Jordan regressou ao jogo, marcou 19 pontos nos últimos seis minutos (tinha apenas 10 antes disso) e os Bulls venceram. “Eu disse-te para não me provocares, pequenino,” largou Jordan no fim do jogo.

“Pelo Natal, véspera de ano novo, estávamos sete, oito, 10 jogos à frente do segundo classificado,” relembra Kukoc. “Por isso começámos a focar-nos no nosso basquetebol, no nosso jogo, da maneira como jogávamos. Ouvi algumas vezes, ‘Vamos passar o próximo mês sem derrotas’. Coisas assim. Não importava muito contra quem jogávamos, o foco principal era o nosso jogo, a maneira como jogávamos, a maneira como precisávamos de executar, de perceber o que estava a acontecer em campo. Era tudo acerca da maneira como jogávamos.”

Os Bulls estavam realmente sobre rodas, 23-2 antes de uma derrota apertada em Indiana e depois 18 vitórias seguidas para um começo de 41-3. A corrida pela conferência estava basicamente acabada, mesmo com os Magic a ganharem 60 jogos nessa temporada.

“As pessoas começara a falar (acerca das 70 vitórias),” relembra Wennington. “Lembro-me de estar a falar com um tipo, com ele a dizer que conseguíamos. Mas ainda era cedo e para nós era do tipo, ‘vamos jogar e ver o que acontece.’ Eu sei que toda a gente na imprensa rejeitava isso quando estávamos 30-3, mas naquela altura havia gente a pensar nisso. Do tipo, ‘Bolas, pode acontecer aqui, vamos tentar.’ Isso foi antes da pausa para o All-Star.”

“Com o Phil, outro objetivo era que a quantidade de vitórias não interessava, o nosso objetivo era ir aos playoffs e vencer,” disse Wennington. “Ele disse, ‘não nos vamos preocupar com números. Vamos preocupar-nos com o que precisamos na nossa divisão e preparar-nos para os playoffs.’ Ele estava sempre a desviar-nos e a distrair-nos de números específicos. Era o primeiro ano na lifa do Jason Caffey e lembro de andar no balneário uma vez e o Jason estar a olhar para mim e a abanar a cabeça e dizer, ‘é sempre assim?’ Eu virei-me e olhei para ele e disse, ‘Jason, precisas de prestar atenção ao que está a acontecer com esta equipa porque nunca é assim. É fantástico o que está a acontecer, nem sempre acontece.'”

Mesmo algumas dessas derrotas foram fantásticas.

Os Bulls foram a Denver depois de uma emocionante vitória em Los Angeles e de tudo o que te pode ocupar em Los Angeles e deixar-te a 25 pontos do adversário ao intervalo. Os Bulls recuperaram e lideraram com Jordan a marcar 39 pontos. Mas perderam o fôlego e os Nuggets conseguiram a vitória e deixaram os Bulls com 41-4.

“Tivemos um começo parecido no nosso segundo ano depois de ganharmos o primeiro campeonato (1991/92, 37-5) e o Jerry Reinsdorf enviou-me uma note onde dizia, ‘Espero que não estejas a tentar bater o recorde de vitórias,'” conta Jackson. “E eu disse que não, estamos só a jogar.”

“Eles apenas gostavam de vencer todos os jogos,” disse Jackson da equipa de 1995/96. “Não tiravam folgas. Era uma equipa que gostava realmente de ganhar. O Michael queria provar alguma coisa, que o seu regresso era de verdade, que a versão dele que tinham visto nos playoffs da temporada passada era alguém que não estava no seu melhor nível. O Dennis estava a provar que era quem ele sempre foi, um grande ressaltador e defensor. Era muito bom nisso. Encaixou como uma luva. O Toni e o Dennis jogaram no poste. Tínhamos um grande grupo. Muita gente passou mal contra aquela equipa.”

As únicas derrotas consecutivas naquele ano foram com os Suns. Mas o padrão regressou: sete vitórias seguidas, uma derrota em Miami, e depois seis seguidas até ao 54-6.

“Não havia descanso nem durante o treino,” recorda Wennington. “Ele (Jordan) esta a 100% a toda a hora, pressionando toda a gente e desafiando todos. Ele estava realmente focado no que precisávamos de fazer e no que ele ia fazer. Mas também os tipos à volta dele. Ele deixava-te saber que a única razão para não treinares era se estivesses morto ou se não pudesses andar.”

“Lembro-me de um dia onde fui o último a ser ligado para o treino e estava no balneário quando faltavam 15 ou 20 minutos para começar,” conta Wennington. “O Ron Harper e o Toni Kukoc estavam na sala de treino e disseram que não iam treinar. Enquanto estava a ser ligado, o Michael entra e diz, ‘Harp, o que estás a fazer?’ Ele responde que estava com os joelhos doridos. ‘Vou ficar de fora hohe.’ O Michael diz, “Vai já para o campo! Não precisamos de ti aqui.’ Depois olha para o Toni e diz ‘O que se passa contigo?’ O Toni diz, ‘A minha mão, o meu polegar dói.’ O Michael diz, ‘Não, não precisamos de nenhum de vocês aqui. Não precisamos de ninguém aqui. Precisamos de ti lá fora. A não ser que não possam andar, saiam daqui.’ Ele levantaram-se, foram ligados e saíram dali. Era assim para todos. Não ficavas de fora do treino a não ser que estivesses com uma lesão grave. Se focasses de fora, não jogavas.”

“Fala com algum deles e eles dizem-te que os nossos treinos eram mais duros do que os jogos,” acrescentou Wennington. “Competitivos todos os dias, puxávamos por nós todos os dias. O James Edwards estava connosco nessa temporada. Até ele sabia que era especial. Ele disse que quando estava em Detroit com os Bad Boys eles jogavam duro, mas não era assim, todos os dias.”

Os Bulls tinham três antigos rivais dos Pistons naquela equipa: Rodman, John Salley e James Edwards, os últimos dois estavam na equipa para fazer faltas quando era preciso. Eles jogaram na equipa dos Pistons que venceu dois campeonatos consecutivos onde tiveram 59 vitórias por temporada. Não era desta maneira.

“O que vi não tinha complacência,” diz Edwards, hoje em dia empresário em Detroit. “Todos os jogos eles entravam como se fosse o seu primeiro ou último jogo. Assim que nos fomos aproximando do recorde, jogavam cada vez mais fortes cada jogo.”

Os jogos tornaram-se autênticas finais para os Bulls. Eram tão dominantes que tiveram que se lembrar que ainda havia mais.

“O Ron Harper fez aquelas t-shirts que diziam ‘Não significa nada sem um anel,'” conta Kerr. “Não era uma coisa que falássemos muito, era mais estarmos a viver o momento.”

Foi em Milwaukee que os Bulls chegaram às 70 vitórias no jogo 79, e helicópteros seguiram os Bulls pela autoestrada num evento que foi transmitido para todo o país. Os Bulls iriam fechar a temporada com 72-10 e depois varreram os Heat na primeira ronda dos playoffs, despacharam os Knicks em cinco jogos, e depois tiveram o antecipado duelo com os Magic que varreram por quatro jogos sem resposta.

Os Bulls conseguiram 11-1 nos playoffs. Entraram na série com o campeão da Conferência Oeste, os SuperSonics que tinham vencido 64 jogos e venceram os três primeiros numa corrida de 14-1 nos playoffs. A imprensa celebrou os Bulls como a maior equipa de sempre durante dois dias em Seattle e os Bulls finalmente respiraram. Perderam duas vezes. Mas voltaram a Chicago e fecharam a série.

“A equipa tinha espírito e energia e divertia-se,” diz Jackson. “Era um grupo adulto, não tínhamos muitos jovens. Era uma grande equipa. Não era muito grande. Apostámos no Luc para para o Shaq porque ele não tinha medo e era grande e conseguia aguentar as cargas.”

“Nunca poderíamos antecipar que o Michael iria voltar ao que era, se não melhor,” diz Jackson. “O Scottie estava no topo do seu jogo e era um líder forte. Não éramos grandes como as equipas dos anos 90. No primeiro tricampeonato tínhamos o Horace Grant, Bill Cartwright, Stacey King e o Scott Williams. Mas com o Dennis no poste a defender e a chatear tudo o que mexia, a altura dos defensores do perímetro e o Toni ativo como estava, defensivamente o que aquela equipa conseguia era impressionante.”

Faça um comentário...

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.